Incerteza técnica é a condição na qual o resultado de uma atividade de pesquisa não pode ser previsto com base no conhecimento existente. No contexto do PIPE FAPESP, é o critério que separa um projeto de pesquisa (financiável) de um projeto de engenharia ou desenvolvimento (não financiável). O projeto de pesquisa PIPE “não é uma especificação do produto/processo/sistema/serviço a que se quer chegar, mas sim de quais são as incertezas a vencer com atividades de pesquisa científica ou tecnológica para se chegar aos resultados esperados.” Se um profissional experiente pode resolver o desafio usando conhecimentos e métodos estabelecidos, não há incerteza — e sem incerteza, não há pesquisa para o PIPE.
O que é incerteza técnica — definição precisa
O Manual Frascati da OECD, referência utilizada pela FAPESP para definir atividades de P&D, estabelece que a incerteza é um dos cinco critérios obrigatórios para classificar uma atividade como pesquisa: “Incerteza: No início do projeto de P&D, o tipo de resultado (incluindo os custos e o tempo de P&D) não pode ser determinado com certeza. Existe a possibilidade de que a P&D não produza os resultados desejados, ou que os produza a um custo significativamente diferente do esperado.”
Importante: a incerteza não é sobre o mercado (isso é risco de negócio) nem sobre a execução (isso é risco de gestão). É sobre o conhecimento técnico-científico: não sabemos se funciona, e precisamos pesquisar para descobrir.
| Nível | Descrição | Exemplo |
|---|---|---|
| Incerteza fundamental | Não se sabe se o princípio básico é viável | “É possível usar ondas terahertz para detectar microplásticos em água potável?” |
| Incerteza de aplicação | O princípio é conhecido, mas nunca foi testado neste contexto | “A técnica de PCR quantitativo funciona com amostras degradadas de solo tropical ácido?” |
| Incerteza de integração | Os componentes funcionam isoladamente, mas a combinação é inédita | “O sensor funcionará embarcado no drone com vibração, variação de temperatura e limite de energia?” |
Por que a FAPESP reprova projetos sem incerteza
O modelo de projeto PIPE (Anexo 1) é explícito na seção 6c sobre atividades: “Observar que essa descrição não é uma especificação do produto/processo/sistema/serviço a que se quer chegar, mas sim de quais são as incertezas a vencer com atividades de pesquisa científica ou tecnológica para se chegar aos resultados esperados, e como isso será feito numa primeira aproximação.”
A FAPESP lista como deficiência frequente: “O projeto se propõe a testar resultado já existente, não se caracterizando como pesquisa”; “O solicitante pretende adquirir tecnologia e não desenvolvê-la usando pesquisa”; “A proposta foi apresentada com uma metodologia sem detalhamento suficiente para avaliação de sua viabilidade técnica”. Os assessores são orientados a responder explicitamente: “Há um plano bem fundamentado e com cronograma apropriado para desenvolver pesquisa aplicada com potencial para resultar em um produto, processo ou serviço inovador?” Se a resposta for “não há pesquisa aqui”, o projeto é denegado.
Como formular uma incerteza técnica — método em 4 passos
Passo 1: Identifique o resultado desejado — “Queremos um sistema que detecte X com precisão Y em condições Z.”
Passo 2: Pergunte “por que isso ainda não existe?” — “Porque os métodos atuais de detecção não funcionam sob a condição Z.” ou “Porque ninguém testou a técnica W neste tipo de amostra.”
Passo 3: Formule como pergunta de pesquisa — “É viável utilizar a técnica W para detectar X com precisão Y quando submetida à condição Z?”
Passo 4: Defina critérios mensuráveis de sucesso/fracasso — “O projeto será considerado bem-sucedido se atingir sensibilidade > 90% e especificidade > 85% com p-valor < 0.05 em ensaios com n ≥ 30 amostras.”
| Elemento | Conteúdo |
|---|---|
| Resultado desejado | Revestimento antiaderente para tubulações de petróleo que reduza deposição de parafina em >60% |
| Por que não existe | Revestimentos hidrofóbicos convencionais (PTFE, silanos) perdem eficácia acima de 80°C e 200 bar |
| Pergunta de pesquisa | É possível desenvolver um revestimento baseado em nanocompósito de grafeno-PDMS que mantenha ângulo de contato >150° após exposição contínua a 120°C e 300 bar por 1000 horas? |
| Critério de sucesso | Ângulo de contato >150° após ensaio; adesão ao substrato metálico classificação 5B (ASTM D3359); redução de deposição de parafina >60% em loop de teste |
Incertezas que parecem incertezas, mas não são
| “Incerteza” declarada | Por que NÃO é incerteza técnica |
|---|---|
| “Não sabemos se o mercado vai aceitar” | Isso é risco de mercado, não incerteza técnica |
| “Não sabemos quanto vai custar produzir” | Isso é engenharia de custos, não pesquisa |
| “Não sabemos se vamos conseguir contratar a equipe” | Isso é risco de gestão |
| “Não sabemos qual plataforma de cloud usar” | Isso é decisão de arquitetura, não pesquisa |
| “Não sabemos se conseguimos entregar no prazo” | Isso é risco de projeto |
| “Não sabemos se o regulador vai aprovar” | Isso é risco regulatório |
Como comunicar incerteza no projeto sem parecer fraco
Um receio comum é: “se eu disser que não sei se funciona, vão achar que o projeto é arriscado demais.” Mas no PIPE, demonstrar incerteza é uma virtude — é a prova de que há pesquisa genuína. A chave é comunicar incerteza com competência e método.
❌ Fraco: “Não sabemos se vai funcionar.”
✅ Forte: “A viabilidade de X depende de fatores que não foram suficientemente investigados na literatura. Os estudos de [Autor 1] e [Autor 2] sugerem que a abordagem Y é promissora, mas nenhum demonstrou resultados em condições Z. Este projeto investigará sistematicamente esses fatores por meio de [experimento 1], [experimento 2] e [experimento 3], com critérios quantitativos de sucesso definidos a priori.”
A estrutura é: reconhecer a lacuna → citar o que existe → propor o método → definir como medir sucesso.
Número ideal de incertezas por projeto
Não existe regra fixa, mas a prática sugere: Fase 1 (9 meses) — 2 a 4 incertezas principais, cada uma endereçável em 2-3 meses de experimentação. Fase 2 (24 meses) — 4 a 8 incertezas, organizadas em workpackages com dependências mapeadas. Cada incerteza deve gerar pelo menos um entregável verificável e estar associada a uma evolução de TRL.
Perguntas Frequentes
E se meu projeto resolve a incerteza nos primeiros meses? É possível que uma incerteza seja resolvida rapidamente. Por isso, bons projetos têm múltiplas incertezas encadeadas: resolver a primeira abre novas questões de pesquisa para as fases seguintes.
A FAPESP espera que eu fracasse? Não. A FAPESP espera que exista a possibilidade de fracasso. Se o sucesso é garantido, não há pesquisa. Mas o projeto deve apresentar uma abordagem sólida que maximize as chances de sucesso.
E se minha incerteza é mais de implementação do que de ciência? Se a implementação envolve problemas técnicos que ninguém resolveu antes, isso pode constituir pesquisa. Se é apenas uma questão de “montar as peças de um quebra-cabeça conhecido”, não é pesquisa.
Posso usar o projeto para “aprender uma técnica”? Não. Aprender a usar uma técnica estabelecida é treinamento, não pesquisa. A pesquisa começa quando você aplica a técnica em um problema cuja solução é desconhecida.
Fontes: OECD. Frascati Manual 2015. Cap. 2, parágrafos 2.6-2.16. | FAPESP. Anexo 1 — Orientações e Modelo: Projeto de Pesquisa para Inovação. Programa PIPE, seção 6c. | FAPESP. Normas do Programa PIPE, seção 11.1.7. | FAPESP. Formulário para Parecer Inicial de Assessoria Científica — PIPE Fase 2.



