TRL — Nível de Maturidade Tecnológica: Como Posicionar Seu Projeto no PIPE

Entenda os 9 níveis de TRL (Technology Readiness Level), como se aplicam ao PIPE FAPESP, e como definir o TRL inicial e final do seu projeto para Fase 1 e Fase 2.

TRL (Technology Readiness Level) é uma escala de 1 a 9 que mede o grau de maturidade de uma tecnologia, desde a observação de princípios básicos (TRL 1) até a operação comercial plena (TRL 9). Originalmente desenvolvida pela NASA nos anos 1970 e formalizada por Mankins (1995), a escala é utilizada pelo PIPE FAPESP para que proponentes indiquem o estágio atual da tecnologia (TRL inicial) e o estágio esperado ao final do projeto (TRL final). Tipicamente, projetos Fase 1 cobrem TRL 1-4 (pesquisa e prova de conceito) e projetos Fase 2 cobrem TRL 4-7 (validação e protótipo funcional). Projetos com TRL 8-9 geralmente não se enquadram no PIPE Fases 1 e 2, pois a tecnologia já está madura demais para pesquisa.

Origem e evolução do TRL

A escala TRL foi concebida por Stan Sadin na NASA em 1974 e formalizada por John C. Mankins em 1995 no white paper “Technology Readiness Levels: A White Paper”. Desde então, a escala foi adotada pelo Departamento de Defesa dos EUA, pela União Europeia (programa Horizon), pela EMBRAPII e por dezenas de agências de fomento globais, incluindo a FAPESP. A força do TRL está em criar uma linguagem comum entre pesquisadores, gestores de projetos e avaliadores — em vez de discussões vagas sobre “quão pronto está”, o TRL oferece critérios objetivos para cada nível.

Os 9 níveis de TRL — detalhamento para o PIPE

TRLDescrição FAPESPO que significa na práticaEvidência esperada
1Princípios básicos observados e reportadosVocê leu/observou algo que sugere que uma solução pode existirArtigo de revisão, observações de campo
2Formulação do conceito e/ou aplicação da tecnologiaVocê formulou uma hipótese técnica de como resolver o problemaDocumento conceitual, simulações teóricas iniciais
3Prova de conceito das funções críticas de forma analítica e/ou experimentalVocê demonstrou em laboratório/bancada que o princípio funcionaDados experimentais iniciais, relatório de bancada
4Validação em ambiente de laboratório de componentes e/ou ensaios experimentaisComponentes individuais foram testados e validados em labResultados de ensaios controlados, protótipos de componentes
5Validação em ambiente relevante de componentes e/ou ensaios experimentaisO sistema foi testado em condições que simulam o uso realRelatório de testes em ambiente simulado
6Demonstração do modelo do sistema ou protótipo funcional em ambiente relevanteProtótipo integrado funciona em ambiente que replica condições reaisProtótipo funcional, vídeos de demonstração
7Demonstração do protótipo funcional em ambiente operacionalO protótipo funciona no ambiente real de uso, com usuários reaisRelatório de piloto, feedback de usuários
8Sistema totalmente completo, testado, qualificado e demonstradoProduto final pronto, testado e aprovado em todas as condiçõesCertificações, laudos, homologações
9Sistema já operado com sucesso em todas as condições críticasProduto em operação comercialVendas, contratos, relatórios de operação

STRL — A versão do TRL para software

A FAPESP reconhece que a lógica do TRL nem sempre se aplica diretamente a software e disponibiliza o STRL (Software Technology Readiness Level). Os 9 níveis vão desde a conceituação básica e lógica detalhada (STRL 1-2) até o produto em live com uso pleno (STRL 9), passando por algoritmos prototipados (STRL 3), execução em processador representativo (STRL 4), versão alfa integrada (STRL 5), protótipo completo em beta (STRL 6), validação completa com product release (STRL 7) e go live com documentação completa (STRL 8).

Como o TRL se conecta às Fases do PIPE

Fase 1 (Viabilidade): TRL 1 → TRL 3-4 | Fase 2 (Desenvolvimento): TRL 3-4 → TRL 6-7 | PIPE Invest (Aceleração): TRL 6-7 → TRL 8-9 | Fase 3 (Comercialização): TRL 8-9 → Mercado

Regras práticas: Se você está em TRL 1-2 → submeta para Fase 1. Se você está em TRL 3-4 e tem evidências experimentais → considere Fase 2 Direta. Se você está em TRL 5+ → pode estar maduro demais para Fase 1; avalie Fase 2 ou PIPE Invest. Se você está em TRL 8-9 → o produto já está pronto; o PIPE Fases 1/2 não é o programa adequado.

Erro comum — inflar ou deflacionar o TRL

Inflar (dizer que está mais maduro do que está): Se o assessor perceber que o TRL declarado é maior que o real, pode concluir que não há pesquisa suficiente para justificar o financiamento. Sinal: “já temos protótipo funcional” mas na verdade é um mockup ou uma simulação.

Deflacionar (dizer que está menos maduro do que está): Se a tecnologia já está madura e o proponente finge estar no início, os assessores podem identificar que se trata de “teste de resultado já existente”. Sinal: “estamos em TRL 1” mas a empresa já vende um produto similar.

A melhor prática é ser honesto e detalhado: “Estamos atualmente em TRL 3 — provamos em bancada que o sensor responde ao analito com sensibilidade de 10 ppb em solução aquosa pura. Este projeto levará a tecnologia ao TRL 5-6, validando o sensor em amostras reais de efluente industrial com interferentes, sob condições de pH 3-9 e temperatura 15-45°C.”

Entregáveis por TRL — o que a FAPESP espera como evidência

TRL alcançadoTipo de entregável esperado
TRL 2Documento conceitual com análise de viabilidade teórica
TRL 3Dados experimentais de prova de conceito
TRL 4Relatório de ensaios em laboratório + protótipo de componentes
TRL 5Relatório de testes em ambiente simulado + protótipo integrado
TRL 6Protótipo funcional demonstrado + métricas de performance
TRL 7Relatório de piloto em ambiente real + feedback de usuários

Perguntas Frequentes

Preciso obrigatoriamente começar em TRL 1? Não. Muitos projetos PIPE Fase 1 começam em TRL 2 e avançam para TRL 3-4. Projetos Fase 2 Direta tipicamente começam em TRL 3-4 com evidências de pesquisa anterior.

E se meu projeto não se encaixa na lógica do TRL (ex: é um serviço)? A FAPESP reconhece que o TRL pode não se aplicar diretamente a todos os tipos de projeto. Nesses casos, use a lógica subjacente: descreva o nível de maturidade da sua solução e os marcos de evolução pretendidos, usando o STRL para software ou adaptando a escala ao seu contexto.

Posso avançar mais de 2 níveis de TRL em um único projeto? Sim, desde que o cronograma e orçamento sejam compatíveis. Avançar 2-3 níveis é o mais comum. Avançar 5+ níveis em um único projeto geralmente é irrealista para o prazo disponível.

TRL é o mesmo que grau de inovação? Não. TRL mede maturidade, não originalidade. Uma tecnologia pode ser altamente inovadora e estar em TRL 1 (teórica) ou em TRL 7 (quase comercial). O que a FAPESP avalia é a combinação de ambos.

Fontes: FAPESP. Anexo 1 — Orientações e Modelo: Projeto de Pesquisa para Inovação. Programa PIPE, seção 3 — Tabela TRL e STRL. | MANKINS, J. C. Technology Readiness Levels: A White Paper. NASA, 1995. | FAPESP. Normas do Programa PIPE, seção 11.1.7. | EMBRAPII. Classificação de Maturidade Tecnológica. Brasília, 2019.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima